Capitulo 1 (parte 2 )
Minha mãe não tinha o que fazer quando eu teimava. Puxei a ela, de modo
que não podia ficar surpresa. Mas o problema não era só comigo. Ela andava
tensa. O verão chegava ao fim e logo viriam os meses frios. E as preocupações.
Minha mãe botou a jarra de chá na mesa com raiva. Fiquei com a boca
cheia d’agua só de imaginar o chá gelado com limão. Mas eu tinha que esperar;
seria um desperdício tomar meu copo agora e depois ter que beber agua no
jantar.
- Mas você vai morrer se preencher o formulário? – ela disse sem se
aguentar. - A Seleção pode ser uma
oportunidade maravilhosa para você, para todos nós.
Suspirei alto, pensando que preencher aquele formulário seria como a
morte para mim.
Não era segredo que os rebeldes (N/A: não é nossa
amada banda não) - as colônias subterrâneas que odiavam Illéa, nosso vasto e
relativamente jovem país - investiam em ataques cada vez mais frequentes e
violentos ao palácio. Já tínhamos visto os rebeldes em ação em
Carolina. A casa de um dos magistrados fora completamente incendiada, e os
carros de pessoas da Dois forem destruídos. Houve ate uma espetacular fuga da
prisão: eles libertaram uma adolescente que engravidara e um Sete que era pai
de nove filhos, de modo que ate achei que eles estavam certos daquela vez.
Mas além das ameaças, eu sentia que só pensar na
Seleção já fazia meu coração doer. Não consegui esconder meu sorriso enquanto
pensava em todas as razões para permanecer exatamente onde estava.
- Os últimos anos tem sido muito difíceis para seu
pai – minha mãe estrilou – Se você tiver um pouco de compaixão, vai pensar
nele.
Meu pai. Sim. Eu queria ajuda-lo. E May e Gerad. E
até minha mãe. Eu não tinha como sorrir diante da maneira como ela expôs a
situação. Fazia tempo demais que as coisas não iam bem. Eu me perguntava se meu
pai veria a Seleção como um meio de fazer com que tudo voltasse ao normal, se é
que o dinheiro podia melhorar as coisas.
Não que nossa situação fosse tão precária a ponto
de temermos por nossa sobrevivência ou algo assim.
Nossa casta era a terceira antes do fim do poço.
Éramos artistas. E os artistas. E os artistas e músicos clássicos estavam so
três degraus acima da sujeira. Literalmente. Nosso dinheiro era curto, vivíamos
na corda bamba e nossa renda dependia muito da mudança de estações.
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