terça-feira

Sete da Manhã : 2 capítulo

 


 
 
O garoto mexia impaciente em alguns papéis e ela o olhava sem entender. Antes que pudesse perguntar, no entanto, ele disse: 
- Qual o seu número na chamada, mesmo? 
- Por quê? 
- Para que eu coloque no trabalho, oras! – Ele falava baixo e próximo a ela, para não atrapalhar o seminário – Ou você quer mesmo repetir em física, como a senhora Hilton falou? 
- Não... Acho que não... - Lua ainda não estava entendendo a situação muito bem. 
- Aqui... – O menino entregou-lhe uma folha – Leia, você tem uns quinze minutos no máximo para entender o que está aí e poder apresentar. É pouca coisa e é a parte mais fácil, você consegue. 
- Ok... – Ela concordou e olhou o papel, respirando fundo. Depois voltou a encarar o garoto – Obrigada... ahn, qual o seu nome mesmo? 
- A gente estuda junto desde o ano passado e você ainda nem sabe meu nome? – Ele deu um sorriso triste. 
- Desculpa... – Lua pediu sem graça, sem saber o que responder. 
Arthur Aguiar – O menino falou e voltou sua atenção para as folhas de papel, encerrando o assunto. Lua fez o mesmo. 

- É... Muito bom... – A senhora Hilton comentou contrariada, fazendo anotações ao fim do seminário de Lua e Arthur, o resto da turma aplaudia. 
- Eu disse que você conseguiria... – O menino se aproximou e sorriu. Parecia querer abraçá-la, mas não tinha certeza se deveria, então apenas acrescentou – Você foi ótima. 
Lua não respondeu, simplesmente sorriu meio tímida. E os dois voltaram aos seus lugares. 
Arthur...? – Ela chamou incerta pelo rapaz que havia adotado permanentemente o lugar perto dela. Arthur levantou a cabeça e a olhou, esperando que ela continuasse – Obrigada... Você não tinha porquê fazer isso por mim... 
- Você já agradeceu... – Ele sorriu novamente e ignorou a segunda parte do comentário dela – E eu cobrarei o favor, não se preocupe... – Arthur fez uma cara maliciosa e Lua sentiu um arrepio percorrer seu corpo. 

Os dias passaram sem maiores acontecimentos significativos. No início, Arthur sempre cumprimentava Lua, simpático e sorridente, tentava puxar assunto. Ela, no entanto, não fazia questão de prolongar as conversas e ele acabou desistindo aos poucos. Ou pelo menos a garota assim achava. 
Suas notas estavam cada vez piores. Não fazia os trabalhos, não estudava para as provas, nem ao menos prestava atenção nas aulas. E então o diretor lhe chamou em sua sala. 
- Sente-se senhorita Blanco, por favor... – O homem comentou prestativo, apontando para uma cadeira vazia em frente a sua mesa. Lua se sentou e ele fez o mesmo em seguida, acrescentando – Eu preciso falar com a senhorita, e imagino que já saiba o porquê, não? 
A menina não respondeu, mas obviamente sabia. Apenas abaixou a cabeça e o diretor completou: 
- Suas notas estão muito baixas... Em todas as matérias... Se continuar assim repetirá o ano... – O diretor falava em certo tom de tristeza. Lua gostava tanto dele, era um velhinho extremamente bondoso. Era estranho, mas doía vê-lo assim, decepcionado com ela. Concordou com um sinal de cabeça, mas permaneceu em silêncio – Querida, eu sei que você passou por momentos muito difíceis... Mas a vida continua. 
Lua segurou com todas suas forças as lágrimas. Não iria chorar, não na frente dele. Respondeu com dificuldade: 
- Eu prometo que farei o possível para melhorar, eu prometo... – E saiu correndo da sala, sem nem pedir autorização ou esperar uma resposta. 
Já nos jardins da escola, ela se sentou na grama, entre troncos de uma árvore, e se entregou. 
Não podia continuar assim, decididamente não podia. Mas não sabia o que fazer ou como fazer. Ela pensava que não suportaria, duvidava que pudesse ser feliz novamente. Mas não achava justo desperdiçar a sua vida, enquanto ele... Só de pensar nele o choro se tornava mais intenso, seu coração ficava mais apertado. Ela esperava que o tempo curasse aquelas cicatrizes, mas a cada dia ficava mais descrente quanto a isso. A dor, a angústia, o medo, a tristeza, a solidão... Eram sempre as mesmas. Nada mudaria o que acontecera. E ninguém poderia ajudá-la. 
- O que houve? 
A garota olhou na direção em que a voz vinha, assustada. Tentou enxugar as lágrimas rapidamente, mas não obteve muito êxito. O rapaz, porém, ajudou-a a fazer isso. 
- Por que você está chorando? – Ele passou as mãos delicadamente pelo rosto dela, sua expressão era de preocupação.

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