domingo

Sete da Manhã

capitulo 7
últimos cápitos



Arthur acordou não muito tempo depois, com uma leve dor de cabeça. A dor pareceu se multiplicar, no entanto, quando as imagens do que acontecera horas antes começaram a voltar a sua mente. Respirou fundo e abriu os olhos finalmente, constatando que tudo não havia sido um sonho. 
Sentou-se e sentiu o quarto girar. Sabia que não era efeito da bebida, não havia bebido tanto, mas preferiu acreditar nisso. Tocou carinhosamente o braço da garota estendido sobre sua cintura, e segurou sua mão com força, enquanto tentava organizar os pensamentos.  Lua  se mexeu, mas não acordou. Arthur então aproveitou para se levantar. 
A luz do sol já entrava pela janela iluminando o local. Arthur pegou um lençol e cobriu a garota. Pensou em colocá-la na cama, mas teve medo que ela acordasse. Depois começou a procurar suas roupas e vestiu-se. Caminhou lentamente até a porta que levava ao banheiro, lavou o rosto na pia e encarou seu reflexo por alguns segundos no espelho. Não pôde continuar por muito tempo. Voltou ao quarto e sentou-se novamente no chão, num canto, encostado à parede e abraçando os joelhos. Apenas conseguindo pensar o quanto era idiota. 
Arthur não saberia dizer quanto tempo ficou ali. Pensou em ir embora, mas seria ainda mais cafajeste de sua parte deixar a menina sozinha e sem entender nada. E queria dar explicações a ela, mesmo que ainda não soubesse quais. Estava tentando encontrá-las, quando ouviu um grito. Virou-se para encontrar uma  Lua  com o olhar extremamente assustado, enquanto segurava o lençol na altura do peito e encolhia as pernas. 
- Arthur... O que houve? – Ela perguntou com a voz extremamente trêmula, assim que reconheceu o rapaz. 
- Você... não lembra de nada? – O garoto perguntou sem olhá-la. Não sabia se era capaz de, além de tudo, contar o que acontecera. 
Lua 
 ficou em silêncio algum tempo, enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas, lentamente. Ela estava lembrando. 
- Eu não posso acreditar nisso... – A garota parecia tentar convencer a si mesma dizendo aquilo, enquanto o choro se intensificava. 
- Por favor, não fique assim... – Arthur pediu sem saber o que fazer, tinha medo de se aproximar. Mas ver aquela cena doía demais. 
A menina chorava mais a cada segundo. Apesar de tudo, Arthur nunca a vira daquela forma, assustada. Encaminhou-se até ela com cuidado e quando estava a uma distância suficiente, a abraçou. Esperava uma reação adversa, que a garota o batesse, xingasse, o mandasse sumir da sua frente e nunca mais aparecer. Mas ela retribuiu o ato, passando as mãos na cintura dele e apertando. Arthur a sentia tremer, as lágrimas molhando sua blusa... 
- Desculpa... 
A garota se soltou do abraço para olhá-lo e esboçou um sorriso. 
- Você não tem porque pedir desculpa... 
Aquilo só o fez sentir-se ainda mais culpado. 

Os dias que se seguiram àquela noite não foram nada agradáveis. Com o início das férias e devido aos últimos acontecimentos  Lua  e Arthur se encontravam raramente. Falavam-se mais por telefone, e as conversas não eram como antes. Assim como os encontros. Nada de longas conversas, risadas e brincadeiras. Pareciam estar com vergonha um do outro, com medo de encararem, de enfrentarem os fatos. 
- Ah, oi, Arthur! Tudo bem? – A garota pareceu surpreendida ao ver o garoto parado ao lado de fora de sua casa. 
- Tudo, na medida do possível... – Ele sorriu levemente, dando os ombros, mas sem tirar as mãos do bolso do casaco – E com você? 
- Também – Ela não teve tanto sucesso ao forçar um sorriso de retribuição. Apressou-se em dizer – Mas vamos, entre! 
- Não, não... – Arthur respondeu rapidamente e  Lua  interrompeu o movimento – Eu vim te chamar pra dar uma volta... 
- Não acho que seja uma boa idéia... 
- A gente precisa conversar – Ele falou sério e os dois pararam por um minuto. 
- Ok –  Lua  concordou relutante. Sabia que era necessário o que não queria dizer, que gostaria que aquela conversa acontecesse – Vou buscar minha bolsa e já volto. 
Pouco tempo depois ela estava de volta, com o capuz da blusa na cabeça e a bolsa pendurada no ombro. Andaram em silêncio até um parque no caminho entre a casa da menina e o colégio deles. Arthur sentou-se na grama, mas  Lua ficou estática. Aparentemente só percebera onde estavam naquele momento. 
- Eu não gosto daqui... – Ela falou insegura, olhando para os lados. 
- Eu imaginava isso – Arthur respondeu olhando-a diretamente – Exatamente por isso estamos aqui. 
- Ok, você está me deixando com medo... – A garota cruzou os braços e deu um passo para trás.
- Não fique... – Ele sorriu sinceramente. 
- O que você quer de mim? 
- Sua felicidade... – Novamente ele passou uma sinceridade incrível nas palavras – É tudo que eu quero e é tudo que eu tento há muito tempo, mas parece que... Tudo só piora. 
Lua 
sentiu as pernas fraquejarem e desmontou no chão ao lado dele. Deitou-se e ficou observando o céu. Arthur fez o mesmo. 
- Desculpa por eu ser essa pessoa tão... – Ela começou a falar depois de um tempo – Chata. Tudo que você tem feito nesses últimos meses foi tentar me ajudar e eu nunca nem te agradeci. Só fui uma companhia extremamente desagradável... 
- Pelo contrário, eu passei momentos maravilhosos com você. 
- Ah, qual é, Arthur? Às vezes nem eu me agüento... – Ela sorriu e virou a cabeça para o lado, para vê-lo. Viu que o garoto já a observava. 
- Sério – Ele falou simplesmente. 
- Então, sobre o que a gente ia conversar mesmo? –  Lua  voltou a olhar pro alto. 
- Sobre esse clima terrível que ficou entre a gente depois da noite do baile – Arthur foi direto. Pôde perceber as bochechas da menina corarem levemente – Eu sei que nenhum de nós dois quer que ele permaneça, mas sei também que é inevitável. Mas o que poderíamos fazer agora, Luinha? Aconteceu... – Ele parecia ter dificuldade em falar. Acrescentou – E pra completar, sei que absolutamente nada do que eu estou falando está ajudando. 
- Você é um amor, sabia, Arthur? – Ela falou baixinho, em seguida respirou fundo – Eu não quero que as coisas mudem entre a gente por causa do que aconteceu... Eu não consigo mais imaginar minha vida sem você... –  Lua  fez uma pausa – Acho que com o tempo tudo vai ficar bem... 
- Claro... – Ele concordou, mas sem ter realmente certeza. 
Passaram mais algum tempo em silêncio, até o rapaz se manifestar novamente. 
- Posso te fazer uma pergunta? 
- Pode –  Lua  estava esperando por aquilo, tinha certeza que sabia sobre o quê ele iria questionar. 
- O que houve com teu pai? 
- Meu pai? –  Lua  repetiu sem entender. Não era sobre isso que ela estava pensando. 
- Sim... Você nunca fala nada sobre ele... 
- Bem, eu não conheci meu pai... Ele abandonou minha mãe quando ela estava grávida e nunca mais deu notícias, fim –  Lua  deu um tom de encerramento ao assunto e Arthur murmurou um “hm” – Mas agora diga, o que você queria realmente perguntar? 
- Por que acha que não era isso? – Arthur sorriu sapeca, virando o corpo de lado para poder olhá-la melhor. Ela continuou na mesma posição. 
- Porque não era, oras. Eu te conheço, Arthur Aguiar. 
- Ok – Ele se ajeitou e esperou que ela o olhasse para completar – Eu só queria saber se você ainda confiava em mim a ponto de falar sobre coisas... não tão agradáveis. Que você não gosta de falar. 
- Estou entendo aonde você quer chegar... –  Lua  ergueu uma sobrancelha – Esse parque, meu ex-namorado... Eu acho que você sabe mais do que eu acho que você sabe... 
- Talvez... – Arthur respondeu depois de pensar no que ela havia tido – Seu ex-namorado, sim, é sobre ele que eu quero falar... O que aconteceu, Luinha? – Ele perguntou com cuidado. 
Ela apoiou a cabeça sob um dos braços, estava virada na direção de Arthur, mas olhava para longe, aparentemente sem realmente ver o que olhava. O garoto esperou pacientemente ela começar a falar.
- Ele morreu –  Lua  disse simplesmente. 
- Você nunca falou disso com ninguém, né? – Arthur perguntou, ainda cuidadosamente e viu a menina balançar a cabeça, confirmando que não – Eu sei que é difícil, mas talvez te ajudasse contar. Não guardar tudo isso só pra você, sabe? Eu estou aqui pra te ouvir... 

- Adoro esse parque, principalmente no outono... –  Lua comentou com um sorriso infantil, erguendo uma folha seca na altura dos olhos e em seguida assoprando-a e vendo-a voar.
- Você já disse isso... – O garoto riu.
- Não canso de repetir... – Ela fez bico enquanto se ajeitava nas pernas do rapaz, onde estava deitada. Ele começou a acariciar os cabelos dela.
- Não acha que é melhor nós irmos, Luinha? São quase sete da manhã, vamos chegar atrasados na escola...
- Ah, quem se importa? – A menina fez uma carinha maliciosa – Podemos entrar na segunda aula, prefiro mil vezes ficar aqui com você...
- Matar aula, mocinha? Que coisa feia! – O menino fingiu uma cara de desaprovação. Ela se levantou e se sentou ao lado dele, o abraçando.
- Você também não prefere estar aqui comigo?
- Você tem dúvidas? 
Lua  o abraçou ainda mais forte. Como gostava daquele garoto...
- Eu queria que esse momento pudesse durar pra sempre...
- Esse momento não pode durar pra sempre, mas podemos pra sempre ter momentos como esse – Ele sorriu.
- Hm... É uma possibilidade... – Ela sorriu também e os dois se beijaram.
- Desculpe interromper o casalzinho... – Eles se separaram rapidamente, devido ao susto. Um homem alto, de chapéu e óculos escuros estava parado ao lado deles. Sua mão estava dentro do casaco, porém ele prontamente a tirou de lá, apontando uma arma -... mas a menina vem comigo, agora! E nada de gritar, mocinha... – Acrescentou ao ver a expressão no rosto de 
 Lua .
- Olha, amigo, calma... – O menino levantou as mãos, tentando manter a tranqüilidade – O que o senhor quer? Pode levar tudo...
- Eu já disse que quero a menina! – Ele respondeu irritado, olhando a garota com uma expressão extremamente tarada. Segurou o braço dela com força e puxou, ainda apontando a arma – Vem!
- Não! – O rapaz entrou entre eles, sem se importar com o resto do mundo, a única coisa que lhe importava era proteger aquela garota.
- Saia da frente ou eu atiro!
- Tudo bem, amor... Vai ficar tudo bem... – 
 Lua  não controlava as lágrimas e era evidente que não acreditava no que dizia, mas tentava impedir o menino de fazer uma loucura. Mas não conseguiu.
- Sai da frente!
- Não! Você não vai encostar um dedo nela.
- Sai da frente, é a última vez que eu peço!
- NÃO! 
Lua fechou os olhos assim que ouviu aquele barulho, alto, extremamente alto. E então gritou, com todas as forças.
Ouviu vagamente o barulho de passos, alguém corria. Sentiu algo cair aos seus pés. Mas não tinha coragem de abrir os olhos, apenas chorava e continuava a gritar.
Alguém se aproximou. Uma mulher. Segurou 
 Lua  pelos ombros e disse alguma coisa sobre tudo ficar bem e pediu calma. Exclamou algo como “Oh, meu Deus!” e saiu dali avisando que chamaria uma ambulância.
A garota não conseguiu mais se manter em pé e caiu. Abriu os olhos devagar.
- Chay... Por favor, não me deixe... Agüenta, você vai conseguir...
Sem perceber ela segurou a mão dele sob o peito. Pôde ver pela última vez aqueles olhos, agora sem aquele brilho intenso de sempre. Pôde ver pela última vez a tentativa de um sorriso. Antes de tudo acabar.
Ela voltou a gritar, sem conseguir controlar os soluços. Levou as mãos trêmulas ao rosto e só então viu o sangue que havia nelas.
 

- Por que você está chorando, seu bobo! –  Lua  riu, entre lágrimas, vendo Arthur no mesmo estado que ela. 
- Eu preciso te contar uma coisa... – Ele respondeu com a voz falha, tentando se recompor, sem muito sucesso – Eu sabia que o Chay era o seu namorado... Eu o conhecia e sabia... o que tinha acontecido com ele... 
- E eu desconfiava disso... – A garota deu de ombros – Eu não sou tão idiota, Aguiar... 
- Mas tem algo que eu acredito que você não saiba... 
- O quê? – A menina pareceu confusa, enquanto enxugava o rosto. Arthur ao contrário, tinha desistido disso. 
- Eu não apenas o conhecia... Chay Suede era o meu melhor amigo... – Ele teve medo ao ver a expressão que surgiu no rosto dela, mas estava decidido a contar tudo – Rodrigo, Micael, Chay e eu... Éramos muito amigos, a gente tinha uma banda... Era a gente que ele ia te apresentar no dia do baile... – Ele deu um sorriso triste, enquanto a garota voltava a chorar descontroladamente. 
- Eu não posso acreditar nisso... Por que você mentiu esse tempo todo, Arthur? 
- Eu sabia o quanto você estava sofrendo, eu também estava... Eu queria ajudar, mas contando a verdade eu achei que só pioraria as coisas, entende? 
- Não, eu não entendo! – Ela se levantou irritada, falava aos gritos – Você me enganou, todo esse tempo você... me usou
- Por favor, Luinha... Você está chateada e eu compreendo, mas você sabe que não é assim... – Ele pediu, levantando-se também e se aproximando. Ela se afastou. 
- Fique longe de mim! Por que, Arthur? Por que você fez isso? 
- A verdade não importa agora e só vai piorar tudo, mas se você realmente quiser saber eu falo... 
- É o mínimo que você poderia fazer depois de tanta mentira – Ela estava realmente brava. 
- Por que eu sempre fui apaixonado por você – Arthur foi direto – Desde antes de você e o Chay começarem a namorar. Ele sabia disso, sempre soube. Mas gostava de você também e você gostava dele. Eu apoiei o relacionamento de vocês, falei que te esqueceria. Mas não esqueci, e essa é a parte que ele não sabia. O Chay mantinha você afastada de nós exatamente por isso. Ele achava que seria tudo mais difícil se nós estivéssemos próximos. 
- Você está falando... sério? – Ela perguntou totalmente perdida e o garoto confirmou com um sinal. 
- Ele acreditava que eu não gostava mais de você... Então ia “apresentar” a gente como se eu não estudasse na sua sala desde o primeiro ano. Mas você nunca tinha reparado na minha existência mesmo, né? 
Lua 
 não respondeu imediatamente. Quando o fez, foi aos gritos novamente. 
- Você é pior do que eu pensava! Então você só se aproximou de mim por interesse? 
- Claro que não! A única coisa que me importava era te ver feliz de novo, não ficar contigo... 
- E aquele dia do baile... Você não estava bêbado, né? Você queria... 
- Você está entendendo tudo errado... – Arthur o olhou com súplica. Não sabia mais o que dizer ou fazer. 
- Nossa, eu não esperava isso de você, Arthur, não mesmo! Eu... Eu te odeio! – Ela gritou em meio choro, antes de sair correndo. 


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