Capitulo 4
Ela observou os livros e cadernos espalhados por lá, pois já havia começado, ou tentado, estudar. Encarou o garoto com uma cara de leve desespero.
- Matemática.
- Ótima escolha... – Ele ergueu a sobrancelha e suspirou – Sabe, eu odeio matemática... – Ele deu ênfase enorme à palavra “odeio”.
- É, eu também... – Lua sorriu levemente. O menino ficou olhando-a por um tempo, admirando aquele gesto, tão raro de se ver nela, e não pôde não sorrir junto. Balançou a cabeça tentando desviar à atenção.
Quase quatro horas se passaram com os dois estudando sem parar, até Lua deitar a cabeça sobre os cadernos, exausta.
- Eu não agüento mais...
- Nossa, passou muito tempo, eu nem tinha notado... – Arthur comentou olhando o relógio na parede a sua frente, mas no qual mal tinha reparado.
- Minha mãe está pra chegar do trabalho... E a gente ainda está aqui, cara, eu sou uma anfitriã muito ruim... – Ela riu, se levantando e começando a juntar as coisas – Você quer beber ou comer alguma coisa?
- Não, obrigado... E... você está me mandando embora?
- Mais ou menos... Imagino que seja isso que você queira fazer não é? Eu já ocupei muito do seu tempo...
- Não se preocupe, eu me propus a te ajudar e você pode usar o tempo que quiser... Posso ficar mais sem problema algum.
- Você já ajudou bastante, muito mesmo. Eu continuo estudando sozinha as matérias que tenho mais facilidade... E quando você puder, volta.
- Certo – Ele concordou se levantando finalmente e alongando as costas, com uma cara de dor – Eu entendi que você quer que eu vá antes que sua mãe me veja...
- Não, não é isso... Mas Arthur, já é noite e... – Ela tentava se explicar, enquanto ele ria – O que você acha de tão engraçado em tudo?
- O seu jeitinho... – Ele deixou a garota sem reação com aquela simples frase – Eu só estou brincando, ok?
Eles continuaram arrumando as coisas em silêncio. Apenas o barulho de uma porta se abrindo, ao longe, os interrompeu.
- Ela chegou... – Lua informou.
- Filha?! – Um grito chamando por ela pôde ser ouvido, e depois sons de passos.
- Oi, mãe – A menina respondeu quando a mulher já se encontrava entrando na sala.
- Olá, querida... – Ela se aproximou e só então percebeu que havia mais alguém ali – E olá, rapazinho... Mas quem você seria?
- Arthur Aguiar – Ele respondeu estendendo a mão para cumprimentá-la.
- Você é namorado da minha filha?
- NÃO, MÃE! – Lua revirou os olhos, enquanto Arthur olhava pra baixo – Ele é meu amigo e veio me ajudar com umas matérias...
- Ah... – Num primeiro instante a mulher pareceu meio decepcionada por ouvir aquilo, mas acrescentou simpática – Que bom que você veio... A Lua realmente está precisando de ajuda, não só com a escola. Eu não sei mais o que fazer, desde que...
- MÃE! – A garota interrompeu, irritada – Por favor, chega.
- Tudo bem, desculpe, querida... Foi um prazer conhecê-lo, Arthur, volte sempre.
- O prazer foi meu, senhora... – Se o garoto pretendia dizer mais alguma coisa, Lua não permitiu, o puxando pelo braço pra fora da sala e levando-o até a porta – Não fique assim, Luinha... Eu adorei conhecer sua mãe.
- Quem deixou você me chamar de Luinha? – Ela o encarou com os olhos semi-cerrados, mas não estava mais irritada, gostava que a tratassem pelo apelido – E ok, minha mãe é uma pessoa maravilhosa. Ela só... fala demais.
- Então, estou indo... – Arthur informou depois de alguns segundos de silêncio – A gente se vê amanhã.
- Sim, tchauzinho e... Muito obrigada – Lua falou tímida, sem saber como se despedir dele... Com um aperto de mão, com um abraço ou com...?
- De nada – Arthur respondeu e decidiu por ela, se aproximando rapidamente e lhe dando um beijo carinhoso na bochecha. Ele demorou muitas vezes mais para se afastar do que havia demorado para se aproximar, o que deu tempo a Lua para recuperar os sentidos e abrir a porta para que ele saísse.
No dia seguinte, Arthur se encontrava na casa de Lua novamente. A garota estava tímida e insegura com tanta atenção, mas realmente precisava daquela ajuda e acabou aceitando sem que o rapaz insistisse muito.
- Quer estudar química agora? – Ele perguntou depois de algumas horas sentado com ela na mesa da mesma sala do dia anterior.
- Acho que você já percebeu que meus maiores problemas são com exatas, não é? – Lua respondeu com outra pergunta, sem tirar os olhos do caderno que usava para resolver um exercício.
- Acredito que seja o problema da maioria dos alunos...
- Pois é... Arthur, você poderia buscar o meu livro de química, por favor? Eu queria conseguir terminar isso aqui...
- Claro – Ele empurrou a cadeira e se levantou – Onde ele está?
- No meu quarto... Suba as escadas e vire à direita.
- Ok – O menino concordou e seguiu o caminho indicado por ela. Não foi difícil encontrar o quarto, mas foi quase impossível descobrir onde o livro poderia estar guardado.
- Aqui também não está... – Ele falava sozinho enquanto fechava uma mochila que achara em cima da cama. Não estava entre os livros da estante, nem no armário. Arthur estava ficando com vergonha por fuçar tanto nas coisas dela, mas não era proposital, o que serviu de consolo quando ele abriu uma gaveta e se deparou com calcinhas e sutiãs. Rapidamente a fechou e procurou na seguinte. Ao retirar os livros e cadernos que lá estavam, algo caiu. Uma foto.
O rapaz sentiu os olhos arderem e o coração ficar apertado, por diversos motivos. Era uma foto de Lua com um menino, fazendo caretas. O garoto da foto a abraçava pela cintura e eles pareciam realmente felizes.
- O que você está fazendo?
Arthur caiu sentado, literalmente, com o susto que as palavras não esperadas de Lua o causaram.
- Eu procurava o seu livro quando essa foto caiu de um deles... – Ele se levantou e entregou a foto à menina, que nem ao menos a olhou, colocando-a no lugar onde estava, pegando o livro de química, naquela mesma gaveta, e fechando-a novamente.
- Desculpe perguntar... Mas quem era na foto contigo? – Arthur temia a reação de Lua, mas não poderia deixar de questionar.
- Meu ex-namorado – Ela foi clara e objetiva.
- Ex? Por que você ainda tem fotos dele guardadas? Ainda gosta dele?
- Não acha que está fazendo perguntas demais? – Ela o olhou por um instante e deu-lhe as costas, indo em direção a porta do quarto.
- Acho que sim... Desculpe novamente, é só que... eu tive a impressão que o conhecia...
Lua parou abruptadamente ao ouvir aquilo e se virou pra ele novamente, que completou:
- Ele estudava no nosso colégio, né?
- Estudava – Lua respondeu simplesmente, finalmente deixando o quarto e sendo seguida por Arthur.
- Você está brava comigo? - O rapaz perguntou quando ambos já guardavam as coisas e ele se preparava pra ir embora.
- Não, por que estaria?
- Não sei, mas você ficou calada o tempo todo... Desde que eu vi aquela foto... Você sabe que eu não estava mexendo nas suas coisas, eu só estava...
- Sim, eu sei... – Ela forçou um sorriso enquanto o acompanhava até a porta – Não estou brava, é impressão sua.
- Então você vai aceitar sair comigo amanhã, certo?
- O quê? – A expressão de susto aliada a certo pânico que surgiu no rosto dela era indescritível. Arthur ergueu as mãos.
- Calma... Luinha, amanhã é sábado, você não vai ficar estudando a tarde toda, não é? Vamos dar uma volta... À tarde – Deu ênfase a ultima palavra, deixando claro que queria apenas dar um passeio com ela.
- Obrigada pelo convite, mas... Sim, eu pretendo passar o dia estudando, eu preciso - Lua falou e pôde perceber o desapontamento no rosto dele – Fica pra uma próxima, ok?
- Ok, combinado – Ele sorriu sinceramente – Quando essas provas passarem você sairá comigo pra comemorarmos as suas boas notas – Ele afirmou, se aproximando e lhe beijando a bochecha, como fizera no dia anterior.
E as expectativas de Arthur foram confirmadas. Quase duas semanas depois, ao fim das provas e com as notas entregues, Lua não poderia querer resultados melhores.
- Cara, eu tirei 9.5 em matemática, tem noção disso? – Ela perguntou empolgada dando pulinhos ao observar as notas no boletim. Arthur ria – Acho que foi minha maior nota nessa matéria na vida toda! E graças a você, Arthur, obrigada!
Sem pensar muito ela o abraçou.
- Opa, desculpa... – A garota se afastou envergonhada, depois de perceber o que fizera – Acho que exagerei...
- Imagina... – Ele sorria ainda mais – Foi a primeira vez que você me abraçou, isso é no mínimo... emocionante! – Completou teatralmente. A menina olhou pros lados, ainda mais sem graça.
- E você, como foi? – Ela tentou disfarçar.
- Até que fui bem... Te ajudar com as matérias acabou por me ajudar também, eu nunca teria estudado tanto por conta própria.
- Ah, que bom! Eu estou realmente contente...
- Você não sabe o quanto isso me deixa feliz, Luinha... E orgulhoso – Ele fingiu se “achar” por isso. Em seguida acrescentou – E agora eu posso cobrar o nosso passeio...
- Ah, é... – Lua se lembrou do fato e sua expressão mudou. Arthur disse rapidamente:
- Olha, se você não quiser ir não tem problema, ok? Mas eu adoraria se você fosse... É importante pra mim e acredito que será bom pra ti também.
Era possível resistir a carinha fofa que Arthur Aguiar fazia? Não.
- Tudo bem... Eu saio com você esse final de semana... – Ela se entregou, apesar de não ter a certeza de se deveria – Você passa em casa ou nos encontramos em algum lugar?
- Eu passo na tua casa... No sábado, às três horas, pode ser? – Ele sorriu contidamente.
- Que filme você quer ver? – Arthur perguntou. Estavam parados em frente ao cinema do shopping depois de tomarem sorvete e darem uma volta pelo mesmo. Lua olhava os cartazes, com a mão apoiando o rosto, pensativa.
- Não tem nenhum filme de comédia... Eu queria alguma coisa alegre...
- Olha, tem esse de terror... – Ele apontou e a garota fez cara de nojo – O que foi? Eu gosto...
- Eu odeio.
- Não tenha medo, eu te protejo – Arthur sorriu.
- Não.
- Ok, é isso ou aquele que parece ser bem dramático...
- Por que não pode ser o de romance? – Ela fez bico.
- Porque eu não vou ver filme de romance, ué...
- Por favor... – Lua pediu fazendo a melhor carinha de súplica que conseguiu.
- Ah, entendi tudo – Arthur fez cara de safado e a menina o olhou desconfiada – Filme de romance, comigo... É uma indireta, saquei!
- Cala a boca, Aguiar! – Ela lhe deu um tapa no braço e ele caiu na gargalhada – Tudo bem, vamos ver o de terror, então!
- Não, agora eu quero ver o de romance...
- E eu o de terror.
- O filme já vai começar, criatura – Ele sacudiu-a pelos ombros, mas com carinho – Decide!
- Ok, romance!
- Romance – Ele repetiu, suspirando e Lua sorriu. Os dois seguiram comprar os ingressos e entraram na sala.
“- Eu queria que esse momento pudesse durar pra sempre...”
Ela saiu correndo, aos tropeços, depois de ouvir aquelas palavras.
- Luinha, o que houve? – Arthur apareceu em seguida, se sentando ao seu lado. Fez menção de colocar as mãos sobre os ombros dela, tentando acalmá-la. Lua , no entanto, se desviou, sentando-se um pouco mais longe e respondendo simplesmente:
- Nada.
- Você saiu correndo e chorando da sala de cinema no meio do filme, como não houve nada?
- Só saí correndo, não chorei! Exagerado... – Ela olhou para o outro lado – Só não estava gostando do filme.
- Aham – Ele suspirou – Normal sair correndo quando não se está gostando do filme, ok...
- Aquela cena me lembrou algo que eu não gostaria de ter lembrado, pronto – Lua o encarou por alguns segundos, mas não conseguiu manter o olhar – Já disseram que você é muito intrometido?
- Já disseram que você é muito misteriosa? – Arthur fingiu surpresa, depois riu – Você nunca diz nada além do que eu já saiba, ou já tenha percebido... – Lua torceu o nariz e ele acrescentou – Eu não vou perguntar mais nada... Mas se um dia você precisar de alguém pra conversar, eu estarei aqui, ta?
Ela ficou sem jeito, sem saber o que responder. Encarou os pés.
- Desculpa... Eu só... Passei por um momento muito difícil e não sei se estou preparada pra falar sobre isso ainda, entende? – Ela riu sozinha, enquanto uma lágrima escorria – E não se preocupe, quando, e se eu falar disso com alguém, provavelmente será com você... Porque caramba, você já me fez dizer muito mais do que pro resto do mundo junto, sério...
- Eu tenho um dom – Ele brincou enquanto enxugava a lágrima no rosto dela – Quer ir embora? – Ela apenas assentiu. Ao chegarem à casa da garota, foram novamente recebidos por sua mãe. Ela abraçou a filha enquanto Luinha fazia cara de desinteresse, depois se dirigiu à Arthur.
- Obrigada por tudo, garotinho. A Lua sorriu mais esses dias com você do que os últimos meses inteiros...
- MÃE! – Lua retrucou, corando. Não argumentou mais nada, porém, após ver o olhar sincero dela.
- Fico feliz em saber disso... – Arthur respondeu meio enrolado, sem olhar diretamente pra nenhuma delas – Sempre as ordens – Completou brincando e fazendo uma reverência exagerada, em seguida se despedindo.
“- Eu queria que esse momento pudesse durar pra sempre...
- Esse momento não pode durar pra sempre, mas podemos pra sempre ter momentos como esse – Ele sorriu.
- Hm... É uma possibilidade... – Ela sorriu também e os dois se beijaram.
Em seguida, gritos.
Lágrimas.
Sangue.”
- Esse momento não pode durar pra sempre, mas podemos pra sempre ter momentos como esse – Ele sorriu.
- Hm... É uma possibilidade... – Ela sorriu também e os dois se beijaram.
Em seguida, gritos.
Lágrimas.
Sangue.”
Lua acordou assustada. Esperou a respiração se normalizar e entender o que acontecera.
Havia voltado a sonhar com aquilo. Desde que se aproximara de Arthur não havia mais tido pesadelos, o que era estranho. Mas agora eles estavam de volta. Deitou-se na cama novamente, acreditando que era apenas efeito do filme que assistira. Mas não conseguiu dormir outra vez. O que quer fazer primeiro?
Ela observou os livros e cadernos espalhados por lá, pois já havia começado, ou tentado, estudar. Encarou o garoto com uma cara de leve desespero.
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